Muito mais do que um luxo para eruditos. O latim é a matriz da nossa identidade, essencial para o conhecimento daquilo que somos, do que é a nossa cultura, do sentido dos nossos costumes, para a apreensão das nossas origens. O estudo da língua latina é essencial para a compreensão da língua portuguesa, desenvolve as capacidades de análise e de raciocínio e enriquece o vocabulário. No mundo do direito, a língua torna-se um singular veículo do diálogo institucional e o estudo do latim jurídico é uma ferramenta rica para o profissional exercitar raciocínio e argumentação no seu labor diário. Redescobrir o latim como instrumento preciso para os que lidam com o Direito é um dos propósitos do livro “O Latim e o Direito”, de autoria de José Moaceny Félix Rodrigues Filho, que além de professor da Escola Superior de Advocacia, é Procurador Federal, Conselheiro Estadual da OAB/CE, Especialista em Direito Constitucional e em Ciência Política e Membro Fundador da Academia Brasileira de Cultura Jurídica. A obra será lançada no dia 21 de agosto, à partir das 19h, na Câmara Municipal de Fortaleza. Conversamos rapidamente com o autor sobre a produção da sua obra. 
 
ESA/CE: O senhor poder falar um pouco sobre a produção da sua obra. O que os leitores podem esperar dela? 
 
José Moaceny Félix Rodrigues Filho: O livro é resultado de um desejo antigo, que surgiu desde que estudei latim no Seminário da Prainha. Da vontade de aproximar esses ensinamentos do mundo jurídico. E quando a gente estuda Direito, percebe-se que o latim faz parte e permeia boa parte das disciplinas jurídicas, notadamente aquelas que têm raiz no Direito Romano (Direito Civil, Direito Penal, o próprio Direito Administrativo – embora tenha se consolidado na França, suas noções contratuais estão bem presentes na tradição romana). De tal sorte, que essa aproximação e essa redescoberta do latim e do direito se fazem necessárias e são apresentadas nesse livro, que é propedêutico, pensado para iniciantes, para produzir o despertar da curiosidade do leitor. Para que ele busque beber ainda mais dessa fonte histórica, nesse manancial rico e que merece ser ainda mais explorado, que é a língua latina. 
 
ESA/CE: O Latim, apesar de ser base para a língua portuguesa, parece uma língua distante de nós.  Não nos damos conta, no nosso cotidiano, do quanto ele está presente. O que despertou esse interesse?
 
José Moaceny Félix Rodrigues Filho: Sempre gostei de buscar, de saber, de descobrir a origem das palavras, de estudar a chamada etimologia. E no português, evidentemente, por ser uma língua neolatina, o latim está bem presente, inclusive em nossa fala cotidiana. A ciência ainda hoje classifica em latim o reino animal, o vegetal e a botânica, por exemplo. Como é o nome do mosquito da dengue? Um nome que todos nós estamos pronunciando e é um nome em latim: Aedes Aegypti. O Latim está muito presente e às vezes não damos conta. A palavra ônibus significa “de todos”, ou “para todos”. A maior parte da nossa população anda em um transporte que tem o nome eminentemente latino e não nos damos conta disso. 
 
ESA/CE: Muitos consideram que o uso da linguagem formal ou excessivamente jurídica, pode distanciar a Lei do cidadão comum. Como o senhor avalia isso?
 
José Moaceny Félix Rodrigues Filho:
A perspectiva é o estudo histórico e cultural e a compreensão do presente a partir do passado. A ideia não é defendermos que o latim retorne a ser uma língua oficial, ou que os textos sejam escritos em latim. Isso faz parte dessa epistemologia, desse estudo que se faz das fontes do direito. A gente percebe que uma tradição não se esvai tão facilmente, ao contrario, ela está presente, ela passa de geração para geração. Compreendemos muito melhor a nossa história, os nossos arcabouços jurídicos, quando a gente mergulha nessas fontes, nesses mananciais. Sabemos que a sociedade moderna traz novidades linguísticas, nós acompanhamos, devemos acompanhar e isso é bem-vindo. Somos constantemente feitos de coisas novas e coisas antigas. Se apagarmos o que é velho em cada um de nós, a gente se perde, perde nossa orientação. Se ficarmos somente com o que é velho e não acolhermos as novidades, ficamos para trás. Então é esse composto, essa singularidade junto com essa ambivalência que faz o ser humano mover-se dialeticamente para frente, sempre aprendendo, mas tendo consciência de onde veio.